domingo, 23 de junho de 2013

Ao Niemeyer, e a todos os que criaram algo para a posteridade não importando a tristeza que sentiam

Caros amigos incidentais, companheiros de jornada, irmãos de todos os lugares, dos moto clubes e oficinas, usuários de veículos de duas rodas, gente diversa e versada em discutir sobre como desfrutar da motocicleta e de como mantê-la em bom funcionamento, amantes das viagens, dos relacionamentos em grupo, e de nós que driblamos os problemas da vida pilotando e fazendo parte da paisagem, bem vindos à vida.
          Falando no “prazo de validade” do ser humano, essa inquietação, a certeza da finitude, aqui vai minha homenagem tardia a um ser artista das curvas femininas. Se eu o tivesse conhecido, não como se fala com um ídolo na fila do camarim, mas como alguém que desenvolve um bom trabalho e que este atinge muitas outras pessoas, e fica quando o artista se vai, teria dito a ele que só algo tão sólido quanto o trabalho dele pode realmente reduzir a nossa sensação de efemeridade, e de que através de algo palpável poderemos deixar nossa marca.
          Oitenta anos é pouco para nos revoltarmos com a vida, por isso não entendo como tanta gente consegue viver o tempo todo com raiva. Um amigo, que não direi o nome para preservar sua integridade e pelo fato de que nem sequer pedi autorização para citá-lo, afirmou ter tido um infarto e um princípio de derrame aos vinte e quatro anos. Eu falo por mim, mas acho ter raiva um desperdício de energia tremendo. O tempo me é muito caro.
          Se não consigo me relacionar com determinada(s) pessoa(s), tento de todas as maneiras criar novos espaços para não me obrigar a ter contato com quem não quero. Se no meio em que me encontro recebo muitas criticas negativas ou infundadas, procuro novos espaços, novos amigos. Troco até de trabalho, como já fiz muitas vezes. Não tenho tempo a perder com bobagens. Quero, como o Niemeyer, deixar algo sólido, embora ainda não saiba muito bem o quê, ou como o matemático John Nash, que queria algo inédito, e apesar de esquizofrênico, queria tanto que conseguiu contestar uma tese de Adam Smith.
          Dei-me ao trabalho de escrever todo esse raciocino acima por que me encontro há alguns dias sem motocicleta. E tenho sentido muita tristeza. Não pelo fato de estar sem um bem material, mas pela diferença no deslocamento diário. Não me sinto mais nem menos finito, se foi isso que dei a entender, mas acredito estar perdendo dias de felicidade andando de ônibus, já que é uma grande felicidade para mim andar de motocicleta.
          Lembro uma grande lição que aprendi no oitavo ano do ensino fundamental: o sistema capitalista só é bom para quem tem dinheiro, já afirmava meu professor de história do Brasil. Você compra um transporte que não é de todo seu, já que tem que pagar imposto para poder usá-lo. A empresa que vende uma sucata mecânica como suprassumo da tecnologia não se dá ao trabalho de disponibilizar as peças que são necessárias para que o mesmo se mantenha funcionando. E ainda teve alguém que limitou o número de anos em que as peças de reposição devem estar à disposição. O sistema falido do Brasil pode proporcionar bastante tristeza.


Joel Gomes – acadêmico das ciências sociais, motociclista, colaborador e membro do Brokk MC, triste por estar sem pilotar há muitos dias. (jotagomes@gmail.com)

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