terça-feira, 24 de julho de 2012

Estudo MAIDS: Carros São a Principal Causa dos Acidentes com Motos


Todo problema tem causas, consequências e soluções. Os acidentes com motos são um problema com consequências terríveis, como morte, invalidez, tristeza e prejuízo financeiro. Agora, quais são as causas e as soluções para esse problema?
Olhando para as campanhas de prevenção, parece haver certo consenso entre as autoridades brasileiras que as causas dos acidentes são tão somente a imprudência dos motoqueiros e as bebidas alcoólicas ingeridas por esses elementos do mal. Baseadas nessa impressão distorcida, as autoridades propõem campanhas condenando todos os motoqueiros por pilotarem de forma imprudente e por pegarem a estrada na mais completa embriaguez. Sabe como é, “coisa de pobre sem classe e de pouquíssima educação”.
Sim, caros amigos, isso é verdade. Já ouvi, com esses ouvidos que a terra há de comer, uma otoridadedefendendo que a solução para diminuir os acidentes seria aumentar o DPVAT, pois daí a plebe não poderia mais ter motos. Se bem que outra otoridade logo rechaçou a idéia, pois diminuiria a arrecadação de impostos. Afinal, esse negócio de motos novas gera mais de 10 bilhões de reais por ano. Por cima disso ainda há as motos usadas, combustível, óleo lubrificante, mão-de-obra, peças e serviços. Isso sem contar toda a grana que é gerada pela circulação de mercadorias, viabilizada pelos entregadores de moto. “Vamos colocar a plebe em seu lugar, mas sem diminuir o nosso lucro, né?”
Voltando ao que importa, e os motoqueiros que não bebem e não são imprudentes, será que esses nunca se envolvem em acidentes? É só perguntar para qualquer motoqueiro que ele contará como os carros se jogam em cima das motos, não param no sinal vermelho e fazem conversão à esquerda sem olhar. Essas sim são as principais causas dos acidentes com motos.
Tudo bem, algumas motos também fazem isso, mas há uma grande diferença:
Um motoqueiro imprudente é um bobo. Um motorista imprudente é um assassino.
Mas essa conversa não está levando a nada. As autoridades e os motoristas acham que a imprudência dos motoqueiros causa os acidentes. Do outro lado, os motoqueiros acham que a imprudência dos motoristas é que causa os acidentes. Como saber a verdade? Simples: pesquisa científica.
Em geral, os estudos sobre acidentes de moto limitam-se às consequências: tantos acidentes, tantos mortos, tal prejuízo. Alguns estudos vão um pouco além, analisando os boletins de ocorrência preenchidos pelos agentes de trânsito. O problema é que essas análises são limitadas e reproduzem o preconceito da sociedade (i.e., os motoqueiros sempre são os culpados).
Há dois grandes estudos sobre causas de acidentes de moto: Hurt Report (EUA, 1981) e MAIDS (In-Depth Investigations of Accidents Involving Powered Two Wheelers”, Europa, 2004, revisado em 2009). Esses dois estudos são diferentes dos outros porque foram baseados em um grande número de dados levantados por equipes de especialistas que iam até o local dos acidentes. Engenheiros, médicos e peritos de trânsito. Se você quer descobrir as consequências, vá a um hospital. Se quiser saber as causas, vá ao local do acidente. Se você quer uma solução, pergunte para quem entende das causas. Não confunda causa com efeito.
O MAIDS analisou 921 acidentes na França, Alemanha, Holanda, Espanha e Itália, no período 1999-2000. As equipes iam ao local do acidente, interrogavam os acidentados e as testemunhas, faziam perícia nos veículos e levantavam a topologia do local. O relatório de cada acidente continha aproximadamente 2000 variáveis registradas.
Os resultados mais importantes são:
- Em 50% dos casos, a causa primária do acidente foi erro do motorista do carro.
- Em 37% dos casos, a causa primária do acidente foi erro do motoqueiro.
- 5% dos motoqueiros haviam ingerido álcool.
- Motoqueiros sem habilitação tinham um risco bem maior de se envolverem em acidentes.
- Motoqueiros entre 41 e 55 anos se envolviam em menos acidentes.
- Motoqueiros entre 18 e 25 anos se acidentavam proporcionalmente mais.
- Motoristas que tinham habilitação para motos conseguiam perceber melhor as motos se aproximando.
Em outras palavras, os carros são os grandes culpados dos acidentes com as motos.
Claro que não podemos generalizar a partir de um único estudo. Também é muito provável que o trânsito na Europa seja diferente do Brasil. Aqui no Brasil não são só os carros que matam os motoqueiros. Uma outra boa parcela de acidentes com motos deve ser causada por buracos, falta de sinalização, ruas mal projetadas, falta de visibilidade nas esquinas, brita deixada nas ruas pelas equipes tapa-buraco, ruas que não são limpas com frequência e instalação de estacas nas calçadas. No entanto, mesmo que o MAIDS não tenha sido feito no Brasil, é melhor nos basearmos em algum estudo científico do que em achismos.
Agora, quanto tempo será que demora um estudo desses? Um ano para planejamento, seis meses para treinamento da equipe, dois anos para acompanhamento dos acidentes, um ano para consolidar os resultados. Quase cinco anos. E quanto custaria uma equipe de peritos 24h, veículos, equipamentos, consultores, viagens, diárias, congressos e pesquisadores? Muita grana. Não é coisa para governos quebrados, não é coisa para amadores, não é coisa para quem quer resultados para a próxima eleição, não é coisa de empresa que só quer parecer que está fazendo algo, não é coisa de quem quer descobrir as causas olhando somente para as consequências. Não. É coisa de gente grande.
Analisando o que vem sendo feito no Brasil à luz dos resultados do MAIDS, podemos concluir que:
1 – É bom fiscalizar o uso do álcool e da habilitação. Embora o resultado do MAIDS seja de que apenas 5% dos motoqueiros estivessem usando álcool, esse número estava abaixo do encontrado em outros estudos.
2 – Legal fazer campanhas contra a imprudência dos motoqueiros. Se bem que poderiam ser mais inteligentes, pois qualquer motoqueiro se irrita ao ver um filme com a câmera acelerada para toscamente simular a imprudência, ou então uma propaganda que mostra um motoqueiro sem capacete perder a perna no acidente… campanhas patéticas e hilárias. Isso sem contar que essas campanhas deveriam deixar muito claro que apenas alguns motoqueiros são imprudentes.
Ao invés de culpar os motoqueiros por tudo, a filosofia de alguns instrutores americanos para a educação dos motoqueiros é a seguinte:
Motoqueiro, você não é o principal culpado dos acidentes. Mesmo assim você precisa ser muito mais inteligente que os motoristas de carro. Afinal, mesmo certo, você é a vítima.
Criminalizar os motoqueiros, como as campanhas vêm fazendo, é uma solução simplória e conveniente, que não mexe com os eleitores da classe média (imagine uma campanha ensinando motoristas de carro a terem cuidado com os pobres motoqueiros) e não envolve muitos custos (achismo é bem baratinho e qualquer um pode achar o que quiser, ao contrário das pesquisas científicas). Conveniente sim, mas não eficaz.
Ah… alguém pode até dizer que o número de mortes diminuiu depois das campanhas simplórias. Falácia. A questão não é essa. A questão é que poderia ter diminuído muito mais. A conta não é de quantas pessoas foram salvas com as campanhas. A conta é de quantos motoqueiros poderiam ter sido salvos com a coisa bem feita. Se você salvou dez pessoas quando poderia ter salvo cem, não pode se jactar nos jornais por ter salvo as dez, mas sim ser julgado por ter deixado de salvar noventa. Toda vida tem valor.
Como disse H. L. Mencken, “para cada problema complexo há sempre uma solução simples, elegante e errada”. Não precisamos de soluções convenientes. Precisamos da solução correta, por mais trabalhosa que seja. Pessoas estão morrendo.
Culpar os motoqueiros é fácil. Agora, fazer uma campanha de educação para a classe média que conduz os carros, daí precisa de coragem. Punir as autoridades por ineficácia das campanhas? Nem pensar… “todo mundo sabe que a culpa é dos motoqueiros!”
Além de continuar com as boas ações atuais, a solução correta do problema dos acidentes envolve:
3 – Educar os motoristas de carro, com campanhas educativas e treinamento efetivo. Afinal, como nós vimos, os carros são a principal causa dos acidentes com motos. Simples de entender que os motoristas de carro devem ser educados, mas precisa de coragem e inteligência para fazer isso, né?
4 – Investir em pesquisas para quantificar as causas dos acidentes envolvendo motos no Brasil. É fundamental conhecer um problema antes de propor uma solução. É preciso ir ao local do acidente para descobrir a causa. No hospital só dá para descobrir as consequências. Para essas pesquisas precisamos de grana, inteligência e competência.
5 – Ouvir os motoqueiros. Principalmente os que nunca se envolveram em acidentes, pois eles desenvolveram estratégias eficazes de sobrevivência no trânsito. Simples assim. Inteligência sempre cai bem.
6 – Avaliar as campanhas governamentais, comparando os resultados com campanhas similares realizadas em outros locais e descobrindo como a grana está sendo realmente gasta por toda a operação. Mas daí precisa de uma imprensa independente, que tenha coragem de arriscar o seu patrocínio governamental e suas fontes oficiais. Essa imprensa também tem que ser competente, dominando um mínimo de estatística, de checagem de dados e de técnicas para refutação de argumentações falaciosas. Ouvir outras opiniões além dos press releases das autoridades também ajuda em uma boa reportagem. “Mas é tão fácil dar copy & paste. Além disso, eu sou tão amiguinho das autoridades. Não quero decepcionar quem me trata tão bem”. Para fazer essa avaliação das campanhas, mais do que inteligência, precisamos de jornalistas que tenham um forte compromisso moral. “Mas que coisa mais démodé“.
7 – Cobrar a participação efetiva das fabricantes na redução dos acidentes. Algumas autoridades ficam babando por qualquer ajudinha das fabricantes: “Oh! Eles fizeram uma campanha na minha cidade! Que tudo!”. Tudo bem que as fabricantes não têm muita culpa nos acidentes com as motos dos seus clientes. Mas são responsáveis mesmo assim por minimizá-los. As autoridades deveriam parar de agradecer as esmolas e cobrar um grande investimento em pesquisas e campanhas. Com metas objetivas e cobrança de resultados. Afinal, as fabricantes faturam bilhões de reais. Devem, sim, colaborar na redução dos prejuízos advindos do uso dos seus produtos. Talvez esteja na hora do ministério público apertar um pouco o cerco.

Um comentário:

Anônimo disse...

Por experiência pessoal digo que, a proporção de imprudências em minha cidade são maiores nos motoqueiros do que nos motoristas de carros. Embora seja uma situação que precise de mais cautela e uma análise mais profunda, presencio motoqueiros cometendo uma série de barbáries: cortando pela direita, nunca dando seta, não parando no Pare, dirigindo pela contramão, pela calçada, passando no sinal vermelho e achando todos os meios possíveis para tentar ultrapassar, não se importando com ninguém e nunca com velocidade moderada. Fora a hostilidade, não aceitam que seja chamada a atenção, alias, um dia reclamei com um que cortou minha direita perigosamente e ele queria bater no vidro com o capacete. Lamentável, como pode esperar por educação e respeito no trânsito com seres irracionais desse tipo? Claro que já presenciei condutores de carros ou veículos de grande porte cometendo infrações das mais absurdas, contudo, tenho presenciado com mais frequência em condutores de moto. Estou mais inclinado a acreditar que a unica solução seria uma fiscalização extremamente rigorosa, mas não acho que vingaria por aqui, tendo em vista inúmeros problemas que o Brasil enfrentou, enfrenta e continuará enfrentando ou vivenciando, se conformando...