segunda-feira, 13 de outubro de 2008

De Millôr Fernandes

TUDO QUE EU SEI
DE WITTGENSTEIN
(WITT O QUE MESMO?)

Eu e o deputado Aldo Rebelo estamos convencidos de que hoje o estudo da lingüística não se resume a acordos ortográficos, acentos diacríticos e penetração de línguas estrangeiras em línguas desprotegidas. Quando eu e o deputado Aldo lemos, por exemplo, Chomsky e, mais ainda, Wittgenstein, ficamos convencidos de que a lingüística hoje atingiu a profundidade dos estudos de arqueologia e a altura do Acelerador de Partículas, que até agora, aqui em casa, pelo menos, não acelerou partícula nenhuma.

Mas, linda leitora, é melhor aproveitarmos o resto do espaço para um pouco do próprio filósofo.

1. Todo objeto é idêntico a si mesmo.

2. Maçã é o mesmo que maçã.

3. Ética e estética são uma e a mesma coisa.

4. Suponha agora que eu diga "Sou incapaz de estar errado quando digo: Isso é um livro", enquanto aponto para um objeto. Um erro aqui seria igual a quê? E eu tenho uma idéia clara sobre isso?

5. A estrela da manhã é a estrela da manhã.

6. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o não pedir e somente acreditar que o silêncio que se crê em você é resposta ao seu mistério. "Perdão, leitora, aqui eu me confundi. Isso é da Clarice Lispector."

7. "Se eu sei alguma coisa, então eu também sei que eu sei alguma coisa etc." equivale a: "Eu sei isso", quer dizer, "Eu sou incapaz de estar errado sobre isso". Mas para isso ser assim precisa ficar estabelecido objetivamente.

8. A é o mesmo que a letra A.

No fim, Bertrand Russell, conselheiro e mentor de Wittgenstein desde o início, ficou de saco cheio, se afastou dele. Foi o único a ler seu derradeiro texto (de dez linhas) e comentou: "Não entendi nada. Mas é genial". (Ninguém me convence de que não estava de sacanagem.)

Modestamente, termino com dois pensamentos meus mesmo.

1. Filosofia é uma coisa que discute filosofia.

2. Wittgenstein não é o mesmo que Wittgenstein.

Pra bom entendedor meia palavra basta (entendeu, ...ecil?)

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